domingo, 26 de outubro de 2008

Semana Mitologica- APOLO

E dando fim á Semana Mitologica, trago aqui o deus Apolo:


Apolo nasceu no dia sete do mês délfico Bísio, que corresponde, no calendário ático, ao mês Elafebólion, ou seja, segunda metade de março e primeira de abril, nos inícios da primavera. Tão logo veio à luz, cisnes, de uma brancura imaculada, deram sete voltas em torno da ilha de Delos. Suas festas principais celebravam-se no dia sete do mês. As consultas ao Oráculo de Delfos se faziam primitivamente apenas no dia sete do mês Bísio, aniversário do deus. Sua lira possuía sete cordas. Sua doutrina se resumia em sete máximas, atribuídas aos sete Sábios. Eis aí o motivo por que o pai da tragédia, Ésquilo, o chamou augusto deus Sétimo, o deus da sétima porta. Sete é, pois, o número de Apolo, o número sagrado.
Zeus enviou ao filho uma mitra de ouro, uma lira e um carro, onde se atrelavam alvos cisnes. Ordenou-lhes o pai dos deuses e dos homens que se dirigissem todos para Delfos, mas os cisnes conduziram o filho de Leto para além da Terra do Vento Norte, o páis dos Hiperbóreos, que viviam sob um céu puro e eternamente azul e que sempre prestaram ao deus um culto muito intenso. Ali permaneceu ele durante um ano: na realidade, uma longa fase iniciática. Decorrido esse período, retornou à Grécia, e, no verão, chegou a Delfos, entre festas e cantos. Até mesmo a natureza se endomingou para recebê-lo: rouxinóis e cigarras cantaram em sua honra; as nascentes tornaram-se mais frescas e cristalinas. Anualmente, por isso mesmo, se celebrava em Delfos, com hecatombes, a chegada do deus.
O filho de Zeus estava pronto e preparado para iniciar a luta, que, alías, foi rápida, contra Pitón, o monstruoso dragão, filho da Terra, que montava guarda ao Oráculo de Géia no monte Parnaso e que a ira ainda não apaziguada da deusa Hera lançara contra Leto e seus gêmeos.
Este deus que se está apresentando, já em roupas de gala, paramentado e etiquetado, não corresponde ao que foi no primórdios o senhor de Delfos. O Apolo grego, o Apolo do Oráculo de Delfos, o "exegeta nacional", é, na realidade, resultante de um vasto sincretismo e de uma bem elaborada depuração mítica.
Na Ilíada, aparentando a noite, o deus de arco de prata, Febo Apolo, brilha (e por isso é Febo, o brilhante) como a Lua.
É necessário levar em conta uma longa evolução da cultura e do espírito grego e mais particularmente da interpretação dos mitos, para se reconhecer nele, bem mais tarde, um deus solar, um deus da luz, de esorte que seu arco e suas flechas pudessem ser comparados ao sol e a seus raios. Em suas origens, o filho de Leto estava indubitavelmente ligado à simbólica lunar. No primeiro canto da Ilíada, apresenta-se como um deus vingador, de flechas mortíferas: o Senhor Arqueiro, o toxóforo; o portador do arco de prata, o argirótoxo. Violento e vingativo, o Apolo pós-homérico vai progressivamente reunindo elementos diversos, de origem nórdica, asiática, egéia e sobretudo helênica e, sob este último aspecto, conseguiu suplantar por completo a Hélio, o "Sol" propriamente dito. Fundindo, numa só pessoa e em seu mitologema, influências e funções tão diversificadas, o deus de Delfos tornou-se uma figura mítica deveras complicada. São tantos os seus atributos, que se teme a impressão de que Apolo é uma amálgama de várias divindades, sintetizando num só deus um vasto complexo de oposições. Tal fato possivelmente explica, em terras gregas, como o futuro deus dos Oráculos substituiu e, às vezes, de maneira brutal, divindades locais pré-helênicas: na Beócia, suplantou, por exemplo, a Ptóos, que depois se tornou seu filho ou neto; em Tebas, particularmente, sepultou no olvido o culto do deus-rio Ismênio e, em Delfos, levou de vencida o dragão Píton. O deus-sol, todavia, iluminado pelo espírito grego, conseguiu, se não superar, ao menos harmonizar tantas polaridades, canalizando-as para um ideal de cultura e sabedoria.
Realizador do equilíbrio e da harmonia dos desejos, não visava a suprimir as pulsões humanas, mas orientá-las no sentido de uma espiritualização progressiva, mercê do desenvolvimento da consciência, com base no (gnôthi s'autón), "conhece-te a ti mesmo".
Apolo é saudado como (Smintheús), um deus-rato, a saber, um deus agrario, não propriamente como propulsor da vegetação, mas como guardião das sementes e das lavouras contra os murídeos. Como seu filho Aristeu, o filho de Leto zela pelos campos com seus rebanhos e pastores, de que é, aliás, uma divindade tutelar. Com os epítetos de (Nômios), "Nômio", protetor dos pastores e (Karneîos), "Cárnio", dos rebanhos e particulamente dos carneiros, Apolo defende os campos e sua grei contra os lobos, daí talvez seu nome de (Lýkeios), "Lício".
Sua ação benéfica, porém, não se estende apenas ao campo: com a designação de (Aguyieús), "Agieu", representado por um obelisco ou pilar, ele se posta à entrada das casas e guarda-lhes a soleira. Vigia igualmente tanto a Fratria, com o nome de Phrátrios, quanto os viajantes nas estradas, como atesta Ésquilo, e nas rotas marítimas, sob a forma de delfim, predecessor zoomórfico dos deus, salva, se necessário, os marinheiros e tripulantes. Sob a denominação de (Akésios), "o que cura", precedeu em Epidauro, como médico, a seu filho Asclépio. Já na Ilíada, curara a peste que ele próprio havia lançado contra os aqueus, que lhe apaziguaram a ira com sacrifícios e entoando-lhe um belo peã, nome este, que, sob a forma de (paián), peã, após designar (Paieón), "Peéon", médico dos deuses, passou a qualificar outrossim não só Apolo como deus que cura, mas ainda cum canto sobretudo de ação de graças.
Médico infalível, o filho de Leto exerce sua arte bem além da integridade física, pois é ele um (Kathársios), um purificador da alma, que a libera de suas nódoas. Mestre eficaz das expiações, mormente as relativas ao homicídio e a outros tipos de derramamento de sangue, o próprio deus submeteu-se a uma catarse no vale de Tempe, quando da morte de Píton. Incentivava e defendia pessoalmente aqueles com cujos atos violentos estivesse de acordo, como foi o caso de Orestes, que matou a própria mãe Clitemnestra, conforme nos mostra Ésquilo em sua Oréstia. Fiel intérprete da vontade de Zeus, Apolo é (Khrestérios), um "deus oracular", mas cujas respostas aos consulentes eram, por vezes, ambíguas, donde o epíteto de (Loksías), Lóxias, "oblíquo, equívoco". Deus da cura por encantamento, da melopéia oracular, chamado, por isso mesmo, pai de Orfeu, que tivera com Calíope, Apolo foi transformado, desde o século VIII a.e.c., em mestre do canto, da música, da poesia e das Musas, com o título de (museguétes), "condutor das Musas": as primeiras palavras do deus, ao nascer, diz o Hino homérico, foram no sentido de relcamar "a lira e seu arco recurvado", para revelar a todos os desígnios de Zeus.
Deus da luz, vencedor das forças ctônias, Apolo é o Brilhante, o sol. Alto bonito e majestoso, o deus da música e da poesia se fazia notar antes do mais por suas mechas negras, com reflexos azulados, "como as pétalas do pensamento". Muitos foram assim seus amores com ninfas e, por vezes, com simples mortais.
Amou a ninfa Náiade Dafne, filha do deus-rio- Peneu, na Tessália. Esse amor lhe fora instilado por Eros, de que o deus gracejava. É que Apolo, julgando que o arco e a flecha eram atributos seus, certamente considerava que as flechas do filho de Afrodite não passavam de brincadeira. Acontece que Eros possuía na aljava a flecha que inspira amor e a que provoca aversão. Para se vingar do filho de Zeus, feriu-lhe o coração com a flecha do amor e a Dafne com a da repulsa e indiferença. Foi assim que, apesar da beleza de Apolo, a ninfa não lhe correspondeu aos desejos, mas, ao revés, fugiu para as montanhas. O deus a perseguiu e, quando viu que ia ser alcançada por ele, pediu a seu pai Peneu que a metamorfoseasse. O deus-rio atendeu-lhe as súplicas e transformou-a em loureiro, em grego (dáphne), a árvore predileta de Apolo.
Com a ninfa Cirene teve o semideus Aristeu, o grande apicultor, personagem do mito de Orfeu.
Também as Musas não escaparam a seus encantos. Com Talia foi pai dos Coribantes, demônios do cortejo de Dionisio; com Urânia gerou o músico Lino e com Calíope teve o músico, poeta e cantor insuperável, Orfeu. Seus amores com a ninfa Corônis, de que nasceu Asclépio, terminaram tragicamente para ambos, a ninfa foi assassinada e o deus sol, por ter morto os Ciclopes, cujos raios eliminaram Asclépio, foi exilado em Feres, na cortet do rei Admeto, a quem serviu como pastor, durante um ano. Com Marpessa, filha de Eveno e noiva do grande herói Idas, o deus igualmente nao foi feliz. Apolo a desejava, mas o noivo a raptou num carro alado, presente de Posídon, levando-a para Messena, sua pátria. Lá, o deus e o mais forte e corajoso dos homens se defrontaram. Zeus interveio, separou os dois contendores e concedeu à filha de eveno o privilégio de escolher aquele que desejasse. Marpessa, temendo que Apolo, enternamente jovem, a abandonasse na velhice, preferiu o mortal Idas. Com a filha de Príamo, Cassandra, o fracasso foi ainda mais acentuado. Enamorado da jovem troiana, concedeu-lhe o dom da manteía, da profecia, desde que a linda jovem se entregasse a ele. Recebido o poder de profetizar, Cassandra se negou a satisfazer-lhe os desejos. Não podendo tirar o dom divinatório, Apolo cuspiu-lhe na boca e tirou-lhe a credibilidade: tudo que Cassandra dizia era verídico, mas ninguém dava crédito às suas palavras.
Em Cólofon, o deus amou a adivinha Manto e fê-la mãe do grande adivinho Mopso, quando profeta do Oráculo de Apolo em Claros, competiu com outro grande mántis, o profeta Calcas. Saiu vencedor, e Calcas, envergonhando e, por despeito, se matou. Pela bela ateniense Creúsa, filha de Erecteu, teve uma paixão violenta: violou-a numa gruta da Acrópole e tornou-a mãe de ìon, ancestral dos Jônios. Creúsa colocou o menino num cesto e o abandonou no mesmo local em que fora amada pelo deus. Íon foi levado a Delfos por Hermes e criado no Templo de Apolo. Creúsa, em seguida, desposou Xuto, mas, como não cencebesse, visitou Delfos e, tendo reencontrado o filho, foi mãe, um pouco mais tarde, de dois belos rebentos: Diomedes e Aqueu. Com Evadne teve Íamo, ancestral da célebre família sacerdotal dos iâmidas de Olímpia. Castália, filha do rio Aquelôo, também lhe fugiu: perseguida por Apolo junto ao santuário de Delfos, atirou-se na fonte, que depois recebeu seu nome e que foi consagrada ao deus dos oráculos. As águas de Castália davam inspiração poética e serviam para as purificações no templo de Delfos. Era dessa água que bebia a Pítia.
Das três provas por que passou Apolo com os três consequêntes exílios (em Tempe, Beres e Tróia), a terceira foi a mais penosa. Tendo tomado parte com Posídon na conspiração urdida contra Zeus por Hera e que fracassou, graças à denúncia de Tétis, o pai dos deuses e dos homens condenou ambos a se porem ao serviço de Laomedonte, rei de Tróia. Enquanto Posídon trabalhava na construção das muralhas de Ílion, Apolo apascentava o rebanho real. Findo o ano de exílio e do fatigante trabalho, Laomedonte se recusou a pagar-lhes o salário combinado e ainda ameaçou de lhes mandar cortar as orelhas. Apolo fez grassar sobre toda a região da Tróada uma peste avassaladora e Posídon ordenou que um gigantesco monstro marinho surgisse das águas e matasse os homens no campo.
Não raro, Apolo aparece como pastor, mas por conta própria e por prazer. Certa feita, Hermes, embora ainda envolto em fraldas, lhe furtou o rebanho, o que atetsta a precocidade incrível do filho de maia. Apolo conseguiu reaver seus animais, mas Hermes acabava de inventar a lira e o filho de Leto ficou tão encantado com os sons do novo instrumento, que trocou por ele todo o seu rebanho. Como também tivesse Hermes inventado a flauta, Apolo a obteve imediatamente, dando em troca ao astuto deus psicopompo o caduceu.
Um dia em que o deus tocava sua flauta no monte Tmolo, na Lídia, foi desafiado pelo sátiro Mársias, que, tendo recolhido uma flauta atirada fora por Atena, adquiriu, à força de tocá-la, extrema habilidade e virtuosidade.
Os juízes de tão magna contenda foram as Musas e Midas, rei da Frígia. O deus foi declarado vencedor, mas o rei Midas se pronunciou por Mársias. Apolo o puniu, fazendo que nascessem nele orelhas de burro. No tocante ao vencido, foi o mesmo amarrado a um tronco e escorchado vivo.
A grande aventura de Apolo e que há de fazer del o senhor do Oráculo de Delfos foi a morte do Dragão Píton. Miticament, a partida do deus para Delfos teve como objetivo primeiro matar o monstruoso filho de Géia, com suas flechas, disparadas de seu arco divino. Seria importante não nos esquecermos do que representam o arco e flecha num plano simbólico: na flecha se viaja e o arco configura o domínio da distância, o desapego da "viscosidade" do concreto e do imediato, comunicado pelo transe, que distancia e libera.
Quanto à guardiã do Oráculo de Géia pré-apolíneo, era, ao que parece, a princípio, uma (drákaina), um dragão fêmea, nascida igualmente da Terra, chamada Delfine.
Mas, ao menos a partir do século VIII a.e.c., o vigilante do Oráculo primitivo e o verdadeiro senhor de Delfos era o dragão Píton, que outros atestam tratar-se de uma gigantesca serpente. Seja como for, o dragão, que simboliza a autoctonia e "a soberania primordial das potências telúricas" e que, por isso mesmo, protegia o Oráculo de Géia, a Terra primordial, foi morto por Apolo, um deus patrilinear, solar, que levou de vencida uma potência matrilinear, telúrica, ligada às trevas. Morto Píton, Apolo teve primeiramente que purificar-se, permanecendo um ano no vale de Tempe, tornando-se, desse modo, o deus Kathársios, "o purificador", por excelência. É que, todo (Míasma) toda "mancha" produzida por um crime de morte era como que uma "nódoa maléfica, quase física", que contaminava o génos inteiro. Matando e purificando-se, substituindo a morte do homicida pelo exílio ou por julgamentos e longos ritos catárticos, como foi o sucedido com Orestes, assassino de sua própria mãe, Apolo contribuiu muito para humanizar os hábitos antigos concernentes aos homicídios.
As cinzas do dragão foram colocadas num sarcófago e enterradas sob o (omphalós), o umbigo, o Centro de Delfos, aliás o Centro do Mundo, porque, segundo o mito, Zeus, tendo soltado duas águias nas duas extremidades da terrra, elas se encontraram sobre o omphálos A pele de Píton conbria a trípode sobre que se sentava a sacerdotisa de Apolo, donominada, por essa razão, Pítia ou Pitonisa.
Embora ainda se ignore a etimologia de Delfos, os gregos sempre a relacioaram com (delphýs), útero, a cavidade misteriosa, para onde descia a Pítia, para tocar o omphalós, antes de responder às perguntas dos consulentes. Cavidade se diz em grego (stómion), que significa tanto cavidade quanto vagina, daí o ser o omphalós tão "carregado de sentido genital". A descida ao útero de Delfos, à "cavidade", onde profetizava a Pítia e o fato de a mesma tocar o omphalós, ali representado por uma pedra, configuravam, de per si, uma "união física" da sacerdotisa com Apolo. Para perpetuar a memória do triunfo de Apolo sobre Píton e para se ter o dragão in bono animo )e este é o sentido dos jogos fúnebres, celbravam-se lá nas alturas do Parnaso, de quatro em quatro anos os jogos píticos.
Do ponto de vista histórico, é possível ter-se ao menos uma idéia aproximada do que foi Delfos arqueológica, religiosa e politicamente.
Múltiplas escavações , realizadas no local do Oráculo, demonstraram que, à éóca micênica Sec. XIV-XI, Delfos era um pobre vilareijo, cujos habitantets veneravam uma deusa muito antiga, que lá possuía um Oráculo por "incubação", cujo omphalós certamente era da época pré-helênica. Trata-se, como se sabe, de Géia, a mãe-Terra, associada a Píton, que lhe guargava o oráculo. Foi na Época Geométrica, que Apolo chegou a seu habitat definitivo e, nos fins do Século VIII a.e.c. a "apolinização" de Delfos estava terminada; a Manteía por "incubação",ligada a potências telúricas e ctônias, cedeu lugar à manteía por "inspiração", embora Apolo jamais tenha abandonado, de todo, algumas "práticas como se observa no sacrifício de uma porca feito por orestes, em Delfos, após sua absolvição pelo Areópago. Tal sacrifício em homenagem às Erínias se constitui num rito tipicamente Ctônio. A própria descida da Pitonisa ao Ádyton, ao "impenetrável, localizado, ao que tudo indica, nas entranhas do Templo de apolo, atesta uma ligação com as potências de baixo.
De qualquer forma, a presença do deus patrilinear no Parnaso, a partir da Época Geométrica, é confirmada pela substituição de estatuetas femininas em terracota por estatuetas masculinas em bronze.
O novo senhor do Oráculo do monte Parnaso trouxe idéias novas, idéias e conceitos que haveriam de exercer, durante séculos, influência marcante sobre a vida religiosa, política e social da Hélade. Mais que em qualquer oura parte, o culto de Apolo testemunha, em Delfos, o caráter pacificador e ético do deus que tudo fez para conciliar as tensões que sempre existiram entre as póleis gregas. Outro mérito não menos importante do deus foi contribuir com sua autoridade para erradicar a velha lei do talião, isto é, a vingança de sangue pessoal, substituindo-a pela justiça dos tribunais. Buscando "desbarbarizar" velhos hábitos, as máximas do grandioso Templo Délfico pregam a sabedoria,o meio-termo, o equilíbrio, a moderação. O (gnôthi s'autón), "conhece-te a ti mesmo" e o (medèn ágan), o "nada em demasia" são um atestado bem nítido da influência ética e moderadora do deus Sol.
E como Heráclito de Éfeso (Séc. V a.e.c.), já afirmara que "a harmonia é resultante da tensão entre contrários, como a do arco e da lira, Apolo foi o grande harmonizador dos contrários, por ele assumidos e integrados num aspecto novo. "A sua reconciliação com Dionisio", Salienta M. Eliade, "faz parte do mesmo processo de integração que o promovera a padroeiro das purificações depois do assassinato de Píton. Apolo revela aos seres humanos a trilha que conduz da 'visão' divinatória ao pensamento. O elemento demoníaco, implicado em todo conhecimento do oculto, é exorcizado. A lição apolínea por excelência é expressa na famosa fórmula de Delfos: 'Conhece-te a ti mesmo'. A inteligência, a ciência, a sabedoria são consideradas modelos divinos, concedidos pelos deuses, em primeiro lugar por Apolo. A serenidade apolínea torna-se, para o homem grego, o emblema da perfeição espiritual e, portanto, do espírito. Mas é significativo que a descoberta do espírito conclua uma longa série de conflitos seguidos de reconciliação e o domínio das técnicas extáticas e oraculares".
Deus das artes, da música e da poesia, é bom que se repita, as musas jamais o abandonaram. Note-se, a esse respeito, que os Jogos Píticos, ao contrário dos Olímpicos, cuja tônica eram os concursos atléticos, deviam seu esplendor sobretudo às disputas musicais e poéticas. Em Olímpia imperavam os músculos; em Delfos, as Musas.
Em síntese, temos de um lado Géia e o dragão Píton; de outro, o omphalós, Apolo e sua Pitonisa. Ora, se examinarmos as coisas mais de perto, vamos encontrar em Delfos o seguinte fato incontestável: Apolo com seu culto implantou-se no monte Parnaso, porque substituiu a mântica ctônia, por incubação, pela mântica por inspiração, embora se deva obserar que se trata tão-somente da substituição de um interior por outro interior: do interior da Terra pelo interior do homem, através do "êxtase e do entusiasmo" da Pitonisa, assunto aliás controvertido e que se tentará explicar. Ademais disso, convém repetir, os gregos sempre ligaram Delfos a delphýs, útero, e a descida da sacerdotisa ao ádyton é um símbolo claro de uma descida ritual às regiões subterrâneas.

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